A mesa Você realmente conhece quem mora com você?
Walnei Arenque - Artigo para minha coluna na Revista ZN
Há pouco passamos pelo dia das crianças, data festiva e comemorada entre todas as famílias, esperada pelas crianças, principalmente pela possibilidade de ganhar um bom presente. Passei então a pensar como são hoje em dia e como serão no futuro, as relações pessoais dos pais com seus filhos. Resolvi fechar meus olhos e fazer uma viagem, uma viagem imaginária ao futuro. Fui parar no ano de 2162 e, como em um filme, pude observar os moradores do lugar, em suas relações familiares e cheguei bem perto de um menino que estava acompanhado de um homem. Percebi que tratava-se de pai e filho e então fui ver o que fariam naquela tarde. Comecei a perceber que se tratavam por número e não por nome. O pai era o P1 e o filho o F2. Combinaram em poucas palavras trocadas, que iriam a um museu onde estavam antiguidades. Entraram no museu e pararam diante de um objeto estranho para eles – era um tampo de madeira retangular, madeira branca e trabalhada, e tinha quatro hastes nas pontas. Foram ouvir eletronicamente do que se tratava aquele antigo e desconhecido objeto e aprenderam que seu nome era mesa. Com a explanação e demonstração em 3D daquele estranho objeto, perceberam que em sua volta geralmente havia outros objetos estranhos, chamados de cadeiras. Aquelas pessoas do futuro, curiosas, interagiram com a máquina 3D de demonstração e descobriram para que servia aquela tal de mesa, no ano de 1970. Descobriram que era um objeto que estava presente em todas as casas daquela época e ficava geralmente em uma sala de jantar. Os filhos aguardavam ansiosos o pai chegar em casa, iam sempre esperá-lo na porta e ele era sempre recebido com um abraço. Recebido o pai com honras de chefe de casa, sentavam-se, e faziam suas refeições todos juntos, conversando. Pai, mãe e filhos juntos em uma mesa e conversando. A máquina 3D demonstrava que os pais perguntavam sobre o dia dos filhos, perguntavam sobre suas tarefas escolares, recebiam opiniões e opinavam sobre todas as atividades da família. Todos ficavam sentados de frente uns para os outros e comiam juntos e conversavam. Não havia segredos, não havia traumas, filhos encontravam nos pais o acalanto, a segurança, a harmonia gerada pela relação familiar sólida. A opinião do pai era sempre bem-vinda, até nos assuntos mais delicados. Pais tinham tempo para ouvir seus filhos e filhos tinham tempo para falar com seus pais. P1 e F2 davam risada e achavam aquilo um absurdo. Conversa entre pais e filhos, impossível, isso nunca existiu. Filhos têm amigos para conversar, geralmente por meio eletrônico, não precisam de pais. Casamento é uma besteira, só atrapalha. Por isso mesmo cada um mora em uma casa. Conversa por mensagem é muito melhor, pensavam. Havia um programa de computador chamado Melhor Amigo, por meio do qual as pessoas conversavam com uma máquina, cujas respostas eram exatamente as que queriam ouvir e o programa nunca discordava de sua opinião. Muito melhor. E se diziam humanos, aí eu que estava achando aquilo um absurdo. Voltando à realidade, hoje em dia, será que a sua mesa está sendo utilizada para a reunião familiar diária, para fazer as refeições junto e conversar? Sua mesa já é um objeto descartável em sua casa? Peça de museu? Sua família faz as refeições na frente da TV, na frente do computador, sentado cada um num canto da casa, sem contato, sem conversa, sem nome? Você realmente conhece quem mora com você? Pense agora, é melhor dar de presente um iTudo Qualquer, comprado pela internet, entregue pelo carteiro, sem emoção, sem cartinha, sem nada, só dinheiro, ou seria melhor construir com seu filho um carrinho de rolimã, com madeira achada na rua, mas construído junto? O que tem mais valor, o que emociona mais? Ver seu filho mexendo no iTudo num quarto, sozinho, ou sair com ele, levando o carrinho construído junto, para andar na pracinha e dar boas risadas? Dá tempo para mudar? O futuro está definido? Resgate seu filho, resgate a mesa de sua casa, não deixe sua história ser esquecida, converse, conviva, construa. Dê mais iAmor, iCompreensão, iConselhos. O futuro de ontem é hoje. Faça acontecer.•

Nenhum comentário:
Postar um comentário